A decisão que mais estranha, e a que faz a mesa funcionar.
Ninguém escolhe ninguém por uma fotografia aqui — nem antes, nem durante, nem depois.
A razão não é pudor: é que a fotografia muda o que a conversa é. Assim que há retratos, entra-se obrigatoriamente no julgamento, e a mesa passa a ser uma sala de espera onde cada pessoa está a decidir sobre as outras em vez de falar com elas.
Sem retratos, a primeira coisa que se sabe de alguém é o que essa pessoa disse — e isso chega a toda a gente ao mesmo tempo, à mesa.
Também não há perfis para navegar. Não se procura ninguém nesta aplicação; senta-se a uma mesa e conhece-se quem lá está.
O que se revela, quando, e o que isso protege.
O restaurante aparece na manhã do dia. Quem vai estar consigo, também. O número da mesa, uma hora antes.
Dito cedo demais, a mesa deixa de ser uma noite e passa a ser um plano — e um plano desmarca-se. Dito à hora certa, a espera faz parte da coisa: há alguma coisa por saber até ao fim.
O balcão e a corrida são a excepção, de propósito: aí o sítio diz-se logo, porque quem decide aparecer às nove e meia da noite precisa de saber onde é.
Nada disto está escondido só no ecrã. O servidor não envia o restaurante antes da hora — não há nada para descobrir espreitando.
As trinta perguntas não são um formulário.
É com as respostas que se monta a mesa. Não é a ordem de chegada, nem a idade, nem o bairro.
Por isso o registo é longo — e é a parte do produto que mais custa a atravessar. Quem responde às trinta perguntas está a fazer o trabalho que depois lhe dá cinco pessoas com quem há de que falar.
Há uma regra que manda em tudo: a mesa fecha em três e três. Uma quarta mulher espera, mesmo com lugares vazios, e um quarto homem também. Sem isso, dava mesas de seis homens — e essa é a queixa número um de quem já experimentou isto noutro sítio.
Esperar não custa nada. Só se paga quando a mesa fecha e o lugar é seu.
A parte que assusta, e o que fazer com ela.
Chegue cinco minutos antes e diga no balcão que é a mesa da Cafeteria. Não é preciso procurar ninguém: a mesa está marcada.
Vai chegar antes de alguém, ou depois de todos. Nos dois casos há uma coisa que resolve o silêncio inicial melhor do que qualquer conselho: perguntar como foi a semana de quem está ao lado, e ouvir a resposta inteira.
Se a conversa encalhar a meio, a aplicação abre um jogo de perguntas meia hora depois do início. Não é para preparar em casa — é para desencalhar à mesa, e é por isso que só abre lá.
Ninguém sabe o que você respondeu no registo. As respostas servem para sentar a mesa, e ficam entre si e nós.
Duas contas, e nenhuma é surpresa.
A curadoria paga o trabalho de montar a mesa: ler as respostas, escolher quem se senta com quem, marcar o restaurante. É a única coisa que nos paga.
A conta do jantar é à parte e paga-se lá, como em qualquer jantar. Dizemos à cabeça quanto se espera gastar, para não haver descoberta à mesa.
Quem está em lista de espera não paga nada. A cobrança só aparece quando a mesa fecha e o lugar é seu.
O balcão e a corrida não têm curadoria — não há grupo para montar.
O que acontece no dia seguinte, e porquê nessa ordem.
No dia seguinte perguntamos como correu. Primeiro se foi — para não fazer ninguém falar de uma noite que não viu.
Depois pedimos impressões sobre quem esteve consigo. Devolvemos quantas pessoas disseram cada coisa a seu respeito, nunca quais: saber que duas pessoas acharam que as fez sentir-se ouvidas é bom; saber quais transformaria um elogio num juízo.
A conversa da mesa fica aberta. Não depende de escolhas mútuas nem de ninguém o autorizar — quem esteve à mesa, entra.
No fim perguntamos a toda a gente se correu tudo bem. A toda a gente, e não só a quem procura o sítio de se queixar. O que se escrever aí é privado e nunca chega à pessoa de quem se fala.